segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Aos 26
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Eu não vou ganhar um especial de natal
"Parece estar em outro mundo", diziam. De fato, estava em outro mundo. Ignorava o mundo à sua volta, mergulhado na indolência e arrogância características da sua personalidade. O mundo era só ele e o caminho.
O caminho, uma avenida pouco iluminada com pessoas que se movimentavam parecendo recortes de jornais, ignoradas em sua história, coadjuvantes que não ganhariam um especial de natal na programação de final de ano. Afinal de contas, ao menos para ele, nenhum deles era carismático o suficiente para tal evento.
O vento, assim como os transeuntes, iam contra ele, só ele ia em direção ao seu destino, ninguém, nenhuma folha, nenhuma brisa o acompanharia, apenas ele, suas moedas e suas chaves.
Um esbarrão, um incidente, o força a romper o silêncio, a balbuciar um "desculpa". A moça o olha com cara de ódio. Sua cara fechada e o esbarrão, haviam ofendido ela, aparentemente.
Tentou ignorar e continuar seu caminho. Mas um vazio terrível, um remorso infantil mordiscou sua nuca. Parado, sentiu o vento lambendo seu rosto, dançando em sua volta e gozando dele, sentiu os olhares dos passageiros insólitos queimando suas costas... enfim entendeu: não ignorava o mundo. E a verdade recíproca que surgia da conclusão o incomodava ainda mais: o mundo não o ignorava.
Fez sentido o fato de pensar que nunca estamos sozinhos, de que nunca erramos ou acertamos sozinhos, de que nunca somos ignorados como queremos ou como achamos. A responsabilidade por tudo, pesou em seus ombros, e seus passos se afundaram no chão de concreto irregular. Sentiu vergonha, pensou em voltar, em se retratar, talvez se humilhar para provar seu arrependimento. Mas o vento mudou de direção e o empurrou em diante, a caminho do seu caminho.
As chaves e as moedas tilintavam em seu bolso, como a responsabilidade por tudo. E esse barulho nunca o deixaria esquecer.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
pseudopoetaressentido versão 2.6
Não que me falte sentimento. Longe disso, talvez até sobre. Ele transborda, muitas vezes acho que sufoca, e de tão doce, amarga a garganta como fel. Mas deixa aquele sabor persistente, que fica, desejo de que o tempo não se esgote, saudade do que ainda não foi.
Mas o assunto é esse? Não, o assunto é a inveja.
E eu invejo a poetisa que escreveu sobre ti. E invejo os poetas que manejam as palavras, que as fazem cantar. Aqueles que fazem dos versos, a forma derradeira do sentimento, que moldam neles, o sentido que procuramos embaixo de cada pedra no nosso caminho, em cada canto que rola a poeira.
E a inveja me consome, me corrói, porque gostaria de ter ido além das palavras que já escrevi, para além de tudo, para perto do que você é.
E se um poema for dizer algo sobre mim, acho que deveria começar com "Pretensioso, arrogante e brega".
E se algum poema for dizer algo sobre nós, ele deveria começar com silêncio.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
One thousand cigarretes?
Sentado observo as bolhas da coca no copo subirem para não se sabe onde. Pego o último cigarro do maço. Observo ele. Estalo o isqueiro três vezes.
Prendo o cigarro nos dentes, uma música que gosto começa a tocar. Acendo o derradeiro.
Sentado na sala, trago pacientemente o cigarro. A brasa brilha, caminha em direção ao filtro, a fumaça dança e desaparece no ar...
Olho o maço: a bolinha vermelha que me acompanhou durante anos, companheira na felicidade, na ansiedade... ele me olha com uma cara tão triste...
Mas você sabia que isso ia terminar um dia, não me olhe assim.
Vai ser o último beijo, acabou.
Sei que sempre tive uma queda por você, sempre tive recaídas, mas você sabe como estou agora, sabe que estou decidido a terminar isso.
Não fumo inteiro, o derradeiro, não apago ele no cinzeiro. Isso não é forma de terminar um relacionamento.
Tomo um gole de coca e espero. Observo ele apagar sozinho no cinzeiro: a brasa devorando a si mesma, se consumindo, morrendo...
E esse foi o último beijo. Acabou.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
plano é foda...
- Desce mais uma!
- Mas a gente não ia tomar só uma?
- Uma pra cada!
- Ah, entendi.
- E isso nos faz pensar no quanto essa vida é frágil, né? Tipo, duma hora pra outra já era.
- É...
- Isso é bacon ou toucinho?
- É só gordura mesmo.
- Ah, entendi.
- E fazer planos pra quê, né? No final tudo desanda...
- O pior é que não ta no final ainda... ainda pode piorar...
- Pois é... saideira?
- Pode ser.
- Mais uma, por favor!
- Fazemos planos, tentamos imaginar o que vai acontecer, "vou viajar pra tal lugar, vou comprar tal coisa, quando der vou fazer isso"... e daí acontece merda...
- Plano é só uma lista de coisas que a gente organiza para não acontecer...
- Essa porção era de quê mesmo?
- Bife acebolado com bacon.
- Hum... cadê a cebola?
- O toucinho comeu.
- Desce mais uma!
- Mas não era a saideira?
- Uma saideira pra cada um, porra!
- Ah, entendi...
- E no final é só surpresa essa vida mesmo, né? A gente pede uma porção de bife acebolado com bacon, e... vem uma de toucinho com carne...
- Pois é...
- E olha só, trouxeram Conti ao invés de Brahma...
- Só surpresa essa vida...
- Só surpresa mesmo...
- Desce mais uma!
- Saideira pra quem essa?
sábado, 12 de setembro de 2009
King for a day, fool for a lifetime
Não havia mais nada a ser visto. Os olhares tímidos já haviam vislumbrado a situação, inúmeras vezes.
Não havia mais nada a se esperar. Bastava assumir a conquista.
E não havia nada além do silêncio: o barulho do mundo não penetrava, os olhares do mundo não espiavam, ah, a completa ignorância! Esperava-se apenas por si mesmos.
Sei que você tem um mundo imaginário, e nele você é rei. Nele você é o carrasco justo, que pune com severidade e honra aqueles que assim merecem. Sei que deixa viver em paz e calmaria aqueles que assim você deseja. E nele você é o mestre das palavras, das respostas, nesse mundo você conquista o que é seu por direito, com lógica e paixão, conciliando termos que nunca, em nosso mundo real, se uniriam.
Conheço meu mundo imaginário. Conheço as vozes na minha cabeça, e elas me dizem para acreditar. Mas as vozes me dizem isso em silêncio.
Quando dorme, é a calmaria depois da tempestade, os olhos cerrados abrem o sorriso escondido. Nenhum som, nenhum soluço escapa: apenas a contemplação paciente, esperando os olhos se abrirem em cores impensáveis.
...
Guardo em mim o silêncio da manhã quente...
domingo, 30 de agosto de 2009
Sinceramente, hein?
Mas era tão claro o que ele era. Pelo menos acreditava que fosse. Mas mesmo assim ele se definiu, da forma que sabia: "Não sei o que eu sou. Exatamente".
Por mais que a resposta parecesse descabida, desleixada ou vazia, era verdade. Não a verdade que procuramos como derradeira, como modelo máximo de racionalização, como advogada da ciência ocidental, amém. Era apenas uma resposta sincera.
Mas sinceridade nunca convenceu ninguém. Se assim fosse, seriam perdoados os que se arrependem sinceramente, quando se encontram com a lâmina fria da morte ou com a certeza do erro. Não que tenham se arrependido pela consciência de que seus feitos fossem "ruins" - lembrando que ruim e bom são conceitos construídos socialmente e historicamente, ok? - não, geralmente se arrependeram sinceramente pela vontade de viver, de não morrer (que obviamente não são a mesma coisa), ou pelo desejo de ter de volta algo irremediavelmente perdido.
E sinceramente?
Sinceridade nunca deu dinheiro.
Nem melhores amores.
Nem melhores dias.
E sou sincero quando digo isso. E por isso, ganho o que devo ganhar por ser sincero, um grande "cara como você é babaca".
Porque sinceridade é isso rapaz: ser babaca, ser tolo.
Ser sincero mesmo, é ter coragem de ofender primeiro.
Não perca a próxima oportunidade de ser sincero: se for comentar este texto, cuspa o veneno.