terça-feira, 6 de abril de 2010

Porque tudo tem um fim

O vento entrava pela janela agitando a cortinas brancas, pálidas. Não saberia dizer se estava quente ou frio, estava preocupado com outra coisa.
- Hum... sempre pensei que fosse ser diferente.
- Tipo o quê? Uma luz no final do túnel? Você "sairia" do seu corpo e veria tudo de cima? Um flashback dos melhores momentos?
- É, mais ou menos isso.
- Não, não é assim.
- E se eu tentar fugir de você? Igual àqueles filmes...
- Não dará cero. Na verdade, você já está morto. Estou aqui só notificando você, coisa de protocolo, entende.
- Mas justo agora?
- É, você morre agora. Dormindo, o que é uma benção para muitas pessoas rapaz.
- Hum... e se eu gritar?
- Como eu disse, você já está morto. Mortos não gritam. Ninguém ouvirá você.
- Não há nada a ser feito, não é?
- Você não pode fazer nada, se é isso que quer dizer.
- Ok.
Ele tateia o criado mudo, pega o maço de cigarros.
- Engraçado, eu posso pegar eles.
- Sim, pode. Estamos numa espécie de "sonho". É um estágio antes de você ir embora. Você controla este ambiente.
- Posso fumar, né? Afinal de contas...
- Sim pode. Na verdade você não morreu por causa do seu vício.
- Gostaria que minha mãe ouvisse você agora.
Acende o cigarro. Traga. Não sente o gosto. Não sente nada.
- Uma espécie de sonho, né?
- Sim.
- E se eu me concentrar... posso trazer alguma pessoa para me despedir? Para dizer algumas palavras?
- Talvez.
Fecha os olhos, deseja com toda a fé perdida, com todo o amor congelado, com todo o ódio vivo... abre os olhos: nada.
- Mas...
- Eu disse "talvez". Já chega, vamos. Por que vocês se arrependem quando morrem? Que chatice, é sempre a mesma coisa. Tem uma vida toda para fazer um monte de merda e vão querer concertar quando eu chego. Ah, não, ninguém merece. Vamos que meu expediente já está no fim.
- Eu só queria...
- Chega de mimimi.
Um túnel longo, com uma luz trêmula se abre. Que clichê.

sábado, 3 de abril de 2010

Começa pelo fim

É porque tudo tem um início.
Em algum ponto da história alguém fez isso pela primeira vez. Se descobriu incapaz de suprir suas necessidades sozinho. Teve que se associar. Daí vem a sociedade, né?
Mas antes disso existia um núcleo familiar. Portanto a sociedade é um punhado de famílias, certo?
Mas antes da família, houve a união de dois. Por pura necessidade reprodutiva, vai saber. A idéia de amor veio depois.
Na verdade tem gente que vai falar que o amor que conhecemos atualmente é o amor burguês, que surge com a modernidade, e blábláblá.
Tem gente que vai falar que veio do cristianismo.
Tem gente que vai falar que nem existe.
Tem gente que diz que ama.
E eu pensei em tudo isso só pra dizer que desde que o homem inventou a sociedade, de quebra, ele inventou a solidão.
É porque tudo tem um início.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Xeque mate

Esperava pela resposta como quem espera o resultado de uma biópsia: sabendo que na melhor das hipóteses, teria dos males o menor. Sabia que estava tudo perdido, mas se conformara com a situação, e apenas aguardava pelo veredito.
Ela estava em pé a sua frente, a mesa da lanchonete os separava. Com as mãos espalmadas sobre a mesa, projetava seu corpo magro e pequeno sobre ele. A mesa parecia um tabuleiro, ela, o jogador que inconformado, contempla sua eminente derrota. Incrível como ela parecia grande, perigosa. Seus olhos estavas rachados, vermelhos, chispando raiva. Contrariando sua postura ofensiva, sua voz era calma, baixa, quase suspirada:
- Então é isso?
- É, mais ou menos. Outros detalhes prefiro omitir.
- Sei.
- Sei que está nervosa, eu entendo. Sua raiva é racional.
Na verdade não entendia coisa nenhuma. Nunca fora traído. Raiva racional? Isso existe? Por dentro se divertia com sua tentativa patética em tentar parecer interessado na dor dela. Deixara de se interessar por qualquer coisa sobre ela há tempos. Como se divertia, continuou seu teatro sem cerimônias:
- Aconteceu, entende? Você sabe, paixão é uma coisa que vem e nos pega de surpresa.
- Que clichê, meu Deus! Pare de tentar se explicar! Isso é tão patético!
Fez cara de bolo de farinha: sem gosto, sem expressão. Só queria acabr logo aquela conversa para poder encontrar com a "outra" que então seria a "oficial".
- Só espero que possamos superar esta situação, e assim que você me perdoar, sermos amigos. Afinal de contas, temos uma história....
- História? Que história? Você levou em conta isso? Amigos? Ah, sinceramente!
- Bem, eu pego as minhas coisas esta tarde. Deixo as chaves do apartamento no seu trabalho, com a recepcionista. As contas deste mês e do próximo eu ajudo você a pagar.
- Não quero nada de você. Pegue suas coisas e suma da minha vida...
Levantou-se. Até que não foi tão difícil. Na verdade foi bem fácil. Quando se virou para sair da lanchonete, escutou um murmuro, que de tão baixo era óbvio que saiu dos lábios dela para ser ouvido:
- Pelo menos agora não preciso me sentir culpada mais...
- Como?
- Nada.
A fisionomia dela mudara totalmente. Seu corpo ereto havia se recomposto, pequeno e harmonioso. Seus olhos, brancos novamente, ostentavam as duas esmeraldas com orgulho. Seus lábios úmidos esboçavam um sorriso... de contetamento? Um sorriso? Como assim?
- Culpada pelo o quê? Do que você está falando?
- Nada. Outros detalhes, como você mesmo disse, prefiro omitir.
Levantou, jogou a bolsa sobre o ombro. Passou por ele, ele com cara de bolo de farinha, desta vez de verdade: atônito, sem graça, perdido. O que ela queria dizer com tudo aquilo? Será que ela...?
- Nem precisa devolver a chave. Vou trocar a fechadura por via das dúvidas. Não se esqueça dos seus filmes e livros. Não quero que você tenha nenhum pretexto para me procurar mais.
- Espera aí! Culpada de quê? Do que você estava falando??
Ela continua, graciosa, pequena. Seu vestido leve, aquele que eles compraram juntos no verão passado, balança e acompanha sua cintura. As pernas grossas, amparadas pela sandália plataforma, caminham decididas. Paralisado, percebe que ela continua linda... e que é ela quem dominou o jogo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Teclado na goela

10 minutos para escrever algo que insiste em tentar sair... uma ânsia, mas o vômito não vem.
Tentei enfiar o dedo na goela, mas não saiu uma palavra sequer. Olhando fixamente para o monitor, deixando meus dedos correrem sem rumo pelo teclado, o que pode sair?

Sol no asfalto, avenida longa
calor das 12
um dia a gente se tromba
cheiro de mato cortado
urubu no teto de zinco
galinha de galho
cachorro morcego
Pó preto na mão
Luz verde na cara
Saudade não pára
Equilibrando sobre o fio da navalha

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

post de natal "cruel world vol. I"

A ceia está posta, mesa enfeitada, bonita. Ceia quente, ao contrário da família fria. O fim de ano força essas aproximações. Força promessas. Força esperanças. O natal é bom para se bater fotos bonitas. Para renovar o guarda roupa. Para sentir aquele abraço quente que não se sentiu o ano todo.
No natal, o menino Deus nasceu.
Do outro lado da cidade a ceia é mais simples. Talvez haja mais amor, talvez não. Talvez haja mais esperança, pois é a única coisa que não se paga no natal. Isso sempre se tem aos borbotões. No natal, quase sempre, o menino Deus nasce.
Automático. É assim que o natal fica. Dá-se isso, recebe-se aquilo. Comemos a cesta de natal que a empresa deu. Estouramos o frisante agora, ou guardamos para o ano novo? Abraços. Felicidades. Esperança.
A manjedoura fica em um beco frio e úmido. O menino Deus chora. Os animais do presépio são ratos, cachorros vadios, gatos imundos. Os três reis magos, não são reis, não são magos. São magros: magros de vício, magros de fome. Trazem de presente o olhar triste de quem sabe o que é sofrer. O medo de um futuro pior. A promessa de uma infância sofrida.
No natal, de vez em quando, nasce outro menino.
Em algum lugar, uma criança se deita com a cabeça pesada, com olhos quentes, com a meia vazia, sem presentes. Ela se deita e faz um pedido singelo, mas sincero "papai do céu, só me acorde quando dezembro acabar...".
Não digo que odeio o natal. Eu até gosto. Gosto de ter esperanças, de fazer planos, de sonhar. Mas fico triste em saber que nem todo mundo pode fazer isso.
Mas rezo e torço, para que tenham esperanças, sempre. Mesmo aqueles que não podem se dar ao luxo de ter qualquer coisa.
By the way, Feliz natal...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

E é só

Sempre gostei da metáfora "o céu chora" para falar sobre a chuva. Mas eu pensei em outra ontem, enquanto voltava para a casa depois do trabalho. A chuva era fina, uma cortina branca, e no céu de Marília, um céu bonito devo confessar, já se via o arco-íris. Pensei em algo do tipo "o céu saliva" de vontade, ele nos deseja.
Uma vontade de devorar, engolir todos nós. Quase me convenceu.
Ouvindo empty walls agora de noite, já penso diferente. O céu não saliva de vontade, ele cospe sobre nós, ele vomita: vociferando as frustrações das nossas lembranças, urra em trovões, se debate de ódio em relâmpagos que rasgam o céu e tocam o chão. Ele despreza, não deseja.
Eu tento ver além dessas paredes vazias. Mas me parece que, como em rejection role, estamos aqui só matando tempo, olhando essas paredes pálidas, vis, derramando areia na ampulheta até o fim.
Nada com nada. Só chuva lavando e espalhando saliva, lágrimas e indiferença.
Nada com nada. Só vontade de ficar sentado, esperando o tempo passar.
Nada com nada. Só falta de inspiração para coisas legais.
Nada com nada. Só isso.
E é só.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Depois, depois, depois

Olhava para o teto. A luz de 60 watts nunca iluminou tanto: amarela, ardia e incomodava os olhos vermelhos, inchados, cansados. Pareciam que tinham areia, areia molhada.
Colocou a mão direita sobre a testa. A esquerda suportava a cabeça, dava uma sensação falsa de conforto: ela estava dormente, o pescoço também já doía. A situação toda era um engôdo.
Fechou os olhos. O ponto amarelo ainda estava lá: insistente, insolente, impertinente, e outros "in" que também já foram usados para descrevê-lo.
Cansado, cansado. Desanimado, desanimado.
Pensou em rasbicar algo. Pegou uma folha. Desenhou traços rápidos com o lápis 6B, sabia que o traços sairiam borrados, toscos, grosseiros, não queria nada além daquilo. Percebeu que o desenho era dele, era sobre ele. Escreveu palavras desconexas, coisas que até faziam sentido para ele, não fariam para mais ninguém. "Rápido como, atroz como... uma flecha".
O velho não voltaria hoje, não voltaria nunca mais.
Só em sonhos, mudo, com olhos cansados. Só em sonhos, na chuva, triste. Só em sonhos, sem ouvir nenhuma palavra, além do clichê: "eu sinto muito".
Dobrou o papel, colocou na carteira. Pensou em voz alta: "depois a gente conversa sobre isso". Depois, depois. Sempre depois. Talvez o depois não chegue, talvez nunca chegue.
Colocou a carteira sobre a escrivaninha, apagou a luz, se deitou. A luz ainda estava lá, mesmo de olhos fechados. Sempre está lá, mesmo não estando.
"Depois, depois, depois".